Bruno Aleixo PRESIDENTE

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Cobradores, Credores e Outros Exploradores

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Puro Amor

…A família cresce e todos nós nos transformamos com a chegada de um bebé.
É esse o fascínio. É essa a redenção que nos serve  uma minúscula mão que se nos estende.

Não só o perpetuarmo-nos no tempo – delírio que o nosso espírito mal comporta – mas o mutarmos de geração insciente para geração madura, de geração madura para geração anciã, num acréscimo de responsabilidade e revelação que só por nós não atingiríamos.

Como se fosse meu, dou-lhe as boas-vindas. Abraço-o. Como só cada um de nós sabe abraçar, em silêncio, dentro do peito. Quando está a só com os seus mortos e as suas crianças, únicos que nesse momento íntimo nos ouvem.

A vida prolonga-se, o amor segue o seu caminho, como se pelo seu próprio pé.
…E nós paramos à beira do caminho, recuamos um passo para deixá-lo passar no seu tropel desvairado e seguimos, se ele nos permite seguir com ele.

O ‘Socristão’ da Paróquia

“O pior cego é o que não quer ver”. Toda a gente o diz. Toda a gente o sabe.
O pior dos piores cegos é aquele que, para além da curteza de vista, se faz de parvo.

Ocorreram-me as sábias palavras do povo quando li na net que o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, disse à Nação e ao mundo quenão há na Europa melhor Justiça que a portuguesa“.

…Ora, estancado o riso, podemos debruçar-nos sobre esta singela sentença.

Começando pelo princípio: observando ponto-por-ponto quais são as competências do Procurador-Geral descritas no artº 12 da Lei Orgânica do Ministério Público.

[...]

“a) Promover a defesa da legalidade democrática;
b) Dirigir, coordenar e fiscalizar a actividade do Ministério Público e emitir as directivas, ordens e instruções a que deve obedecer a actuação dos respectivos magistrados;
[...]
d) Informar o Ministro da Justiça da necessidade de medidas legislativas tendentes a conferir exequibilidade aos preceitos constitucionais;
e) Fiscalizar superiormente a actividade processual dos órgãos de polícia criminal;
f) Inspeccionar ou mandar inspeccionar os serviços do Ministério Público e ordenar a instauração de inquérito, sindicâncias e processos criminais ou disciplinares aos seus magistrados;
g) Propor ao Ministro da Justiça providências legislativas com vista à eficiência do Ministério Público e ao aperfeiçoamento das instituições judiciárias ou a pôr termo a decisões divergentes dos tribunais ou dos órgãos da Administração Pública.”

[...]

Por outras palavras, competências de manter a funcionar a máquina legal do Estado e cada uma das suas peças, exigir do poder político condições para que a máquina funcione, e garantir que “Justiça” e “Democracia” sejam conceitos indissociáveis e permanentemente presentes e comunicantes na vida dos cidadãos.

Mas onde anda ele, o tal de “Procurador-Geral”?
Barricado e quedo algures num cantão ou numa freguesia onde a Justiça chega, se faz respeitar e se faz cumprir, e a Democracia impera. Por isso, pela distância, disse o que disse.
Por isso desconhece o que é real.

Porque no resto da Nação, fora dessa freguesia-de-amostra em que vive Pinto Monteiro, não é essa a prova provada da Justiça portuguesa.
E muito seria de estranhar que “a Justiça cá fosse melhor ou igual à do resto da Europa”. Logo a Justiça, no meio de tudo em que cada vez mais divergimos do continente.
…Se assim fosse, a crise europeia seria muito mais grave do que já estruturalmente aparenta.

Não é. Isso não é verdade. E a miopia e o cinismo são os temperos a mais no caldeiro de mais um mandato gorado de Procurador.

Ninguém, senão Pinto Monteiro em causa própria, considera que a Justiça portuguesa está presente para o cidadão, antes, durante ou depois de qualquer passo que dê na sua vida.
Ninguém senão Pinto Monteiro acha que pressionar o poder político para deixar de desprezar, descaracterizar e brincar com a Justiça e seus meios não tem serventia nem cabimento.
Ninguém senão Pinto Monteiro, aparentemente, ignora que a Justiça em Portugal tem uma apetência, uma tramitação, uma  diligência diferente consoante o grupo de poder ou influência que aflore.

Nesta freguesia, é aquele que está mais próximo do cura que dá a missa mediática de cada dia o mais incapaz de lhe puxar pelas vestes e de lhe pedir um momento de atenção à balda e ao regabofe que vai na paróquia – ou ao martírio dos parvos que continuam a seguir o catecismo.
O ’socristão’ serve para dar a hóstia na falta da mão ordenada, para tocar o sino quando é mandado e para mostrar solícito como se tira a bóina quando o cura fala.
E é só.

A “tal” da vassourada, a ser dada, também enxotaria esta espécie de refugos do poder

“Feelings”

O portugas são mesmo um povo muito emotivo. O que explica em parte a onda “feelete” – mais uma… – que papámos sem separar espinhas nem tirar da embalagem.
Numa manobra entre o chocho e o simples, veio um belo dia o Seleccionador Nacional dizer que a Selecção tinha “adoptado” uma musiqueta que a acompanharia durante toda a “campanha”; e lá fomos todos atrás.

Ora eu, que em 2004 até pus a orgulhosa bicolor à minha janela, dou é hoje valor ao Scolari, esse sim motivador de equipas e de populacho, que para o melhor ou para o pior agregou um País como nunca antes (nem depois) à volta dos chutos na bola.
Daí para cá, é reouvir o monocórdico Seleccionador a repetir o rifão do “feeling” para perceber que a sua movimentação de tropas é assim entre o obrigado, o quieto e o parado…

…Ao contrário das movimentações de conta.

Que eu até gosto dos Black Eyed Peas – e o álbum “The E.N.D.” é fixolas – e para as vendas lusitanas não deve ter sido nada mau o empurrão. Mas hoje “I gotta feeling” que, depois das primeiras 300 vezes, ouvir o estupor da música já dá voltas à barriga a qualquer um.

O que, por sua vez, não quer dizer que eu também não tenha o meu “feelete“….
Tenho um granda feelete“, por exemplo, de que este vai sem mais um Mundial à nossa justa medida.
Enquanto algumas selecções – leia-se: “nações” – o encaram como uma prova em que podem vir a falhar no combate pelo caneco – através do seu combate, do suor, do amor-próprio – Portugal, com os seus nativos, os adeptos e a diáspora, encara estar no Mundial como um milagre espantoso e a sua presença nele como um Carnaval permanente, em que se chupa o tutano de um naco gordo de febra que se sabe que acabará de um momento para o outro, com um estrondo e num repente; num repente inevitável.
Daí o motivo de êxtase, daí o motivo de orgia, por um prazer transgressor, transitório e fugaz.
Num País em que o espírito é sempre “até onde é que vamos chegar?”, como quem pergunta a medo “vamos desistir tarde ou cedo?”, num choque frontal de comboio com o epíteto superficial e alarve dos nossos “Navegadores”…

…Mas hoje, com o Brasil, lá vou eu estar a ver, lá vou estar a chatear-me. Faz parte de ser português.
E enquanto o jogo não chega deixo-vos uma fatia de “feelings“.

[Ainda pensei pôr a versão do Richard Clayderman, mas desisti. Há quem não goste muito de música clássica.]

 

Requiem por um homem

A altura não podia ser a mais certa.
…Por pior que isto soe.

Tinha um post em rascunho há meses sobre o Meu-Saramago – chamava-se “Os Cristos e os Quistos” – mas afinal será este o momento do balanço, já que será feito agora ou nunca mais o será.

Requiem a um homem. Primeiro. Ponto.
Ao contrário dos carpideiros de função, de vocação ou de emoção, que surgirão agora – como sempre – assinalo eu o homem. Sem mais. Sem maiúscula. Uma vida que se extinguiu e que por esse simplicíssimo motivo merece respeito e medida. O respeito de uma morte de milhões que a acompanham a um bater de coração deste vasto planeta.

Assinalo o homem – a maiúscula fico com ela fechada na minha gaveta, para outra oportunidade.

…E em tudo o mais me desalinho do coro da convenção.

Já não é a primeira vez que nesta espécie de blog surge José Saramago. Certa altura aqui chamado de “Pequeno Português”.
Já não é a primeira vez que as “qualidades humanas” deste senhor Ser-Amargo são nesta espécie de roteiro amplamente referidas.
Hoje, aqui, Saramago virá pela última vez.

Para mim, Saramago não foi um Homem. Daqueles de que falarei ao meu filho enquanto eu o vir crescer. Daqueles que lhe darei como exemplo de heroísmo, altruísmo ou simples civilidade.

Saramago foi um de muitos portugueses que, aparentando estar um dia do lado certo da História, depressa cavalgaram altos no seu dorso, montados que nela se acharam.
Saramago foi um de muitos portugueses – de muitas cores partidárias – que se opuseram à ditadura de décadas em Portugal. Àquela ditadura que aos jovens tanto enfastia de tão distante que está do seu mundo actual… E foi um dos portugueses que vestido de poder soube ser o tiranete. Que armado de liberdade soube ser o seu carrasco. Um de muitos portugueses reverenciados em vida por equívocos de narração.

Tivesse o seu universo triunfado dos demais e as tais das gerações a quem impingem heróis não teriam ontem futuro. Não teriam sequer hoje a miséria que é nossa.
Que a visão de Saramago, a vingar na nossa Terra, seria a de um povo escravo mudado apenas de dono. Esmagado sob outra bota. Mais suja, bruta e pesada.

Saramago, camarada.
De tiranos e da violência. Serôdio “arrependido” de uma mão mal jogada, que nem por isso cortou. Apenas a enxaguou para voltar a sujá-la na imundície e no vício.

Saramago, “o democrata”.
O que aceita a sua lei mas não as escolhas dos outros. O que vive no proveito e que foge à rejeição.
O homem que conviveu em fastio numa Pátria de menores, mas que mal abertas as portas se exilou no Paraíso: mais mercado, menos taxas, sofrimentos do degredo…

Saramago, “o humanista”.
O homem fechado em si. Homem sem Terra nem Deus. Um homem escandalizado com a impertinência de haver uma História já escrita quando ele nasceu. Um homem perplexo de existir quem não bebesse das suas sábias palavras, quem não lhe lavasse os pés, quem não lhe pegasse no manto, quem não lhe seguisse os passos.

Agora, está morto. E mais nada.

Não hão-de faltar, saídos de todas as toca, letrados que façam o frete do lego da sua estátua. Tão altiva, tão fundada, tão perene…

Amanhã é 19. De Junho, de 2010. E o homem dos pequenos ódios não mais andará cá, entretido a odiar. Entretido a obrigar os homens  à fórmula da Redenção; à Redenção por medida que nem a si trouxe paz.
Amanhã já não poderá mais amar o que é diferente, nem lutar pela verdade, nem ter esperanças e medos que partilhe com os seus irmãos.

E amanhã, já não se falará aqui de José Saramago.
…Nem aqui nem noutro lado. Até para o ano que vem.