
A altura não podia ser a mais certa.
…Por pior que isto soe.
Tinha um post em rascunho há meses sobre o Meu-Saramago – chamava-se “Os Cristos e os Quistos” – mas afinal será este o momento do balanço, já que será feito agora ou nunca mais o será.
Requiem a um homem. Primeiro. Ponto.
Ao contrário dos carpideiros de função, de vocação ou de emoção, que surgirão agora – como sempre – assinalo eu o homem. Sem mais. Sem maiúscula. Uma vida que se extinguiu e que por esse simplicíssimo motivo merece respeito e medida. O respeito de uma morte de milhões que a acompanham a um bater de coração deste vasto planeta.
Assinalo o homem – a maiúscula fico com ela fechada na minha gaveta, para outra oportunidade.
…E em tudo o mais me desalinho do coro da convenção.

Já não é a primeira vez que nesta espécie de blog surge José Saramago. Certa altura aqui chamado de “Pequeno Português”.
Já não é a primeira vez que as “qualidades humanas” deste senhor Ser-Amargo são nesta espécie de roteiro amplamente referidas.
Hoje, aqui, Saramago virá pela última vez.
Para mim, Saramago não foi um Homem. Daqueles de que falarei ao meu filho enquanto eu o vir crescer. Daqueles que lhe darei como exemplo de heroísmo, altruísmo ou simples civilidade.
Saramago foi um de muitos portugueses que, aparentando estar um dia do lado certo da História, depressa cavalgaram altos no seu dorso, montados que nela se acharam.
Saramago foi um de muitos portugueses – de muitas cores partidárias – que se opuseram à ditadura de décadas em Portugal. Àquela ditadura que aos jovens tanto enfastia de tão distante que está do seu mundo actual… E foi um dos portugueses que vestido de poder soube ser o tiranete. Que armado de liberdade soube ser o seu carrasco. Um de muitos portugueses reverenciados em vida por equívocos de narração.
Tivesse o seu universo triunfado dos demais e as tais das gerações a quem impingem heróis não teriam ontem futuro. Não teriam sequer hoje a miséria que é nossa.
Que a visão de Saramago, a vingar na nossa Terra, seria a de um povo escravo mudado apenas de dono. Esmagado sob outra bota. Mais suja, bruta e pesada.

Saramago, camarada.
De tiranos e da violência. Serôdio “arrependido” de uma mão mal jogada, que nem por isso cortou. Apenas a enxaguou para voltar a sujá-la na imundície e no vício.
Saramago, “o democrata”.
O que aceita a sua lei mas não as escolhas dos outros. O que vive no proveito e que foge à rejeição.
O homem que conviveu em fastio numa Pátria de menores, mas que mal abertas as portas se exilou no Paraíso: mais mercado, menos taxas, sofrimentos do degredo…
Saramago, “o humanista”.
O homem fechado em si. Homem sem Terra nem Deus. Um homem escandalizado com a impertinência de haver uma História já escrita quando ele nasceu. Um homem perplexo de existir quem não bebesse das suas sábias palavras, quem não lhe lavasse os pés, quem não lhe pegasse no manto, quem não lhe seguisse os passos.
Agora, está morto. E mais nada.
Não hão-de faltar, saídos de todas as toca, letrados que façam o frete do lego da sua estátua. Tão altiva, tão fundada, tão perene…
Amanhã é 19. De Junho, de 2010. E o homem dos pequenos ódios não mais andará cá, entretido a odiar. Entretido a obrigar os homens à fórmula da Redenção; à Redenção por medida que nem a si trouxe paz.
Amanhã já não poderá mais amar o que é diferente, nem lutar pela verdade, nem ter esperanças e medos que partilhe com os seus irmãos.
E amanhã, já não se falará aqui de José Saramago.
…Nem aqui nem noutro lado. Até para o ano que vem.

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