
O Daniel Oliveira insurgiu-se contra o ‘bullying’ franco-alemão face ao ‘referendo’ grego.
Já eu re-acho que este moço não se cansa de meter os pés pelas mãos.
Fosse esta conversa sobre um Tratado de Lisboa pouco menos que criminoso – e esteve para ser muito pior – e iríamos de braço-dado por essas ruas muito bem entendidos.
Ou fosse sobre o ‘diktat’ Merkozy – como dizia o outro – e continuava com razões para acender uma velinha ao discurso de denúncia do sô Daniel.
Só que não é.
O seu discurso [que me é difícil de digerir] do ‘nós’ contra os ‘outros’ – estando ele do evidente lado certo do ‘nós’ pela boca de quem fala – é de uma retórica mais que estafada.
A retórica de quem, querendo fazer parede com um ‘nós’ que faça por sua vez parede com a sua mentalidade, não hostiliza nem por sombras o ‘nós’ que é assim tratado de forma paternal e infantilizadora.
‘Os gregos estão como estão porque são descuidados, corruptos e preguiçosos’. Diz o moço que dizer isto é ‘racismo’.
Eu digo o contrário. E sou tão não-racista quanto uma vida inteira de palavras e actos o atesta.
‘Os gregos estão como estão’, DE FACTO ‘porque são descuidados, corruptos e preguiçosos’. E não falo de ‘preguiçosos’ de braços, nem ‘corruptos’ de carácter. Falo de um indesmentível ‘descuido’ cívico que se lhes entranhou nos ossos durante décadas e os deixou tornarem-se primeiro paraíso imaginário, depois chacota internacional, depois súbita catástrofe mediática e hoje por fim emergência social. Uma pegajosa preguiça de se mudarem, uma inevitável corrupção daquilo que cada grego desejou para si e roubou a si mesmo.
E vou mais longe: o problema deles é EXACTAMENTE o nosso [que infelizmente o nosso 'problema' não é o da Irlanda / Islândia].
Porque acho sem margem para dúvidas que ‘os portugueses estão como estão porque são descuidados, corruptos e preguiçosos’. Nos mesmíssimos termos que uso para os gregos.
E isto é tão pouco ‘racista’ quanto o incluir-me eu num sacão a que não posso nem pretendo furtar-me individualmente.
E acho que este seria o verdadeiramente pedagógico discurso que o sôr Oliveira e todos os opinadores da paróquia deviam fazer.
E não fazem. Porque não querem poder fazê-lo.
Porque fazê-lo seria sacudir a cumplicidade doentia a que se obrigam numa desprezível solidariedade com os erros de um povo como se esses erros fizessem geneticamente parte dele e se não pudessem extirpar.
E sacudir essa silenciosa cumplicidade seria quebrar o laço sagrado da intimidade com a ‘identidade’ do ‘nós’ que se preserva a todo o custo face à ameaça inventada dos ‘outros’.
Por isso acho que este texto representa mais uma vez uma oportunidade perdida.
Excepto talvez sob a lógica da campanha privada do senhor e seus objectivos particulares.
…Que de qualquer forma não se podem confundir com o interesse geral comum, porque nada garante sequer que coincidam.
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