Cobradores, Credores e Outros Exploradores

pedronunesnomundo @gmail.com

“Surpresa!”…

A vida está cheia de surpresas.
Uma pessoa nem pode sair à rua descansada.

Veja-se o caso da Ministra do Trabalho…

Mal chegou ao posto, não é que o desemprego atinge a casa dos 550.000 e a subir?…
É caso para, como ela, ficar espantado! Disse quenão esperava números tão elevados“.

Não é ela Ministra do Trabalho!… Nem sequer uma mulher com “larga experiência na Confederação Europeia dos Sindicatos“… Nem alguém que tenha vivido os últimos meses no planeta Terra…
É normal a “surpresa”.

…Surpresa que decorre de uma brilhante “governação”, tão atabalhoada e tropeçona ela mesma como a própria nova-Ministra, que andou por duas vezes a terraplanar com o ministerial coiro os corredores de S. Bento, nos seus primeiros dias de mandato.
Surpresa que decorre – para além da “crise” de costas largas – da inépcia do “Governo” desembestado que continua em funções - apesar de algumas opiniões avulsas em contrário – e que a senhora alegremente aceitou integrar.

Tudo é normal.

Até a manipulação que continua a meter-se olhos dentro a uma Nação satisfeitinha com o seu conforto a crédito.

Bem-hajam os malucos. Os do costume.
(Como o amigo Henrique.)

Na Partida…

Robert Enke (24/08/1977 – 10/11/2009)

Robert Enke (24/08/1977 – 10/11/2009)

Estava na loja dos frangos a queimar tempo à espera de ser atendido e observava a enfiada de notícias da treta dum dia comum, espreitadas com fastio numa televisão de som sumido.

E de repente a notícia do suicídio do Robert Enke.

Senti-me chocado. Com a notícia em si, com o facto de aparecer perdida entre duas outras quaisquer banalidades que lhe roubaram o contexto e a profundidade, e com a inevitabilidade de também esta notícia depois de amanhã já se ter diluído na água do tempo.
Que assim é a leveza da vida e assim é a inexorável ligeireza da morte.

Mas chocou-me. Tanto que inauguro aqui uma tag “Benfica” – assunto que dificilmente me veria a ocupar espaço no meu modestíssimo blog.
Tanto que, estranhamente, faço um luto privado pela morte deste desportista.

Nem gosto muito de bola. Há gostos para tudo e os meus são mais outros.
Mas tenho nitidíssima a memória do Enke na baliza do Benfica, em 1999-2002 (fui ver à net, eu, fraco adepto) : a juventude, a garra, a competência, a correcção, a dignidade. Que tanto escasseavam à altura na bola como escasseiam ainda hoje, arte corrompida de mercado, passatempo arvorado em religião.

Depois foi para Barcelona (também fui recordar à net) e nunca mais soube dele…

Hoje apenas tenho pena.
Até pela identificação inevitável que qualquer um faz com a história humana de um fora-de-série cuja vida, nas suas múltiplos caprichos e becos, não foi completa ou feliz. Pela identificação inevitável com a  história de um homem que teve o que muitos cobiçariam mas que não resistiu ao sentimento de uma perda intima que o fez desistir de tudo o mais. A história de um homem de carne e osso.

A vida é assim.
(Será?)
Primeiro milagre grandioso, depois corrupio de carrossel, pelo meio uma meta no horizonte, e por fim uma meta pelo caminho.

Mais do que o que pensa um homem antes de lançar o seu carro para debaixo de um comboio, o que pensa um homem no momento em que o faz?
Que respostas encontra? Que vazio consegue preencher? Terá os seus olhos abertos ou fechados?, secos ou cheios de água?

Agora o silêncio. Enke não regressou mesmo ao seu Benfica.
…De onde, para mim e para as minhas memórias, nunca chegou mesmo a sair.

Um Pouco de “Vaca Pride”

A Rua Sésamo faz 40 anos.
40!…
Desde que nasceu nos States até percorrer o mundo e passar também por Portugal.

O que quer dizer que me é anterior. O que não quer dizer que não tenha feito mais por mim que qualquer Ministério da Educação que eu tenha conhecido.
Juntamente com Os Marretas.

Jim Henson é um óbvio marco da cultura das gerações adultas do Ocidente actual.

…Da cultura, do humor, da ética, da inteligência, da sensibilidade, da parte residual que elas tenham que preste, e com que nós contamos para adiar o caos.

Como homenagem, neste Mundo totalmente absurdo em que insistimos em viver, alguma moralidade, uma colherada de nonsense e uma grande melancolia: o “Cow Pride”.

“Il Pleure Dans Mon Coeur”

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville,
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

O bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s’ennuie
O le chant de la pluie!

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s’écoeure.
Quoi! nulle trahison?
Ce deuil est sans raison.

C’est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi,
Sans amour et sans haine,
Mon coeur a tant de peine!

Paul Verlaine 1874

O Dia da Irlanda

Mais uma vez andamos todos distraídos e a vida a passar lá fora…

É hoje que se vota na Irlanda o chorrilho de monstruosidades baptizado – em Portugal – como Tratado de Lisboa.
Ou, melhor, é hoje que os irlandeses vão ter de levar mais uma vez com um referendo de aprovação ou rejeição do dito. Porque se por um lado os seus políticos não são como os nossos, porque prometeram um referendo nacional e ele aconteceu… por outro são iguaizinhos aos nosso e como não querem borrar a pintura na orquestra europeia massacram os seus concidadãos até eles votarem o que devem: “sim”.

O que é capaz de acontecer.

Estamos numa onda de “pragmatismo”, por causa da crise. E sob essa sombrinha já arrasa o argumento de que não pode neste momento de crise – em que a Irlanda passou de oásis europeu a aterro sanitário – perder-nos com discussões “estéreis” sobre “pormenores” do documento.
“Há que permitir à Europa tornar-se cada vez mais sólida, porque só assim, unida nos povos e nas instituições, se preparará para sacudir a crise e construir o futuro.”
O desemprego e a recessão não permitem desperdícios de tempo.

Daí o perigo. Da pressa.

Se em Junho do ano passado os irlandeses rejeitaram uma primeira vez o “Tratado de Lisboa”, fizeram-no após acalorado debate.
Com populismos e demagogias de parte a parte – como é sempre bom – mas o mais esclarecidos possível…

Agora temos “a pressa”.
…Para além da conveniência.

Aprovar o “tratado de Lisboa” tornou-se vital para a burocracia central europeia. Para aqueles que já se sentam à mesa das decisões, tal como para aqueles que são tolerados numa mesa à parte, para as crianças, mas que aspiram à projecção e ao prémio.

É sintomático que pela Europa fora apenas em parlamento o Tratado Constitucional tenha sido aprovado. Ou seja, em sede onde as maiorias partidárias europeias, confortáveis, jogam o seu peso e a sua vontade.
Em referendos populares, que é bom, veja-se o que houve na França ou na Holanda

Em pânico, a burocracia europeia – com sede em Portugal, por altura da Presidência da União no segundo semestre de 2007 – apressou-se a um travesti que consistiu em chamar “Tratado Reformador” (ou como os tugas pequenitos forçam: “Tratado de Lisboa”) ao tal esboço sinistro de Constituição Europeia, supostamente agora mais fácil de impingir aos desatentos.

É que não estamos a falar de brincadeiras de políticos. Daquelas que sempre nos ardem os bolsos e vergam as costas.
Estamos à porta de uma coisa muito mais grave.
Com este texto “aceite por todos os povos” da União:

* a “Europa” passa a ter uma figura nova, de “Presidente”, espécie de Presidente-da-República-de-todos, esvaziando até os símbolos nacionais mais básicos;
* passa a haver uma espécie de Ministério dos Negócios Estrangeiros da “Europa”, o que faz com que qualquer assunto relevante no contexto internacional deixe de ser tratado connosco, é tratado com o o “nosso” papá, que não deixa espaços para discordâncias quanto à sua política diplomática;
* Portugal nunca mais terá – em função do seu relevo – comissãrios seus na Comissão Europeia, deixa de estar previusta qualquer tipo de rotatividade;
* a prevalência das decisões “europeias” sobre as decisões parlamentares nacionais passa a ser avassaladora;
* a votação em Conselho de Ministros da União passa a funcionar com um esquema de pesos de voto que anulará de forma total a voz das nações menos populosas;
* os nossos recursos e as nossas riquezas – por exemplo a nossa costa – passam a estar subordinadas a um interesse e a uma gestão europeias;
* nem as nossas autoridades policiais nem militares continuam a ser soberanas na actuação dentro dos limites invioláveis do território, passando a ser possível intervenções alheias nestes campos dentro de fronteiras nossas;
* é claramente esvaziada a cidadania portuguesa – ou outra europeia – e progressivamente vamos rumo ao conceito de “cidadão europeu”.

Isto é muito sério.
o disse antes.

Esperemos que contrariamente aos portugueses – que se deixaram papar por uma aprovação no Parlamento – os irlandeses saibam uma vez mais ser o último bastião da independência das nações da Europa, resistindo ao rebuçado e à chantagem.
(Um certo) Portugal agradece.

…Ainda que, como dizia o Millôr Fernandes: “Nação que está à espera de um salvador, não merece ser salva“.

[Publicado também no Canto Aberto.]

Parada de Estrelas

Decorrente da eleição última do PS como formador de “governo” – até ver – já começou a parada de estrelas.
Aquela coisa bastante deprimente da enfiadura dos “ministeriáveis”. (Sim, o termo passou a existir derivado do uso!…)

…Almas que pelo seu “perfil” os opinadores de serviço dão como passíveis de serem animadas pelo toque divino do indicador do sr. Pinto de Sousa, ascendendo em Graça ao Olimpo da Governação do rectângulo.

E nos bastidores do meu deleite desenvolvo o seguinte raciocínio:
- se eu estou em dessintonia com o sr. Pinto de Sousa…
- e se cada uma destas distintas personagens está em perfeita sintonia com o sr. Pinto de Sousa…
- logo, eu já estou em perfeita dessintonia com o próximo Ministro da Educação, ainda ele não chegou. (Cheira-me que saia ele deste ou de outro qualquer ramalhete…)

Tal como eu previa.
…Foi rápido.

Ana Maria Bettencourt

Isabel Alçada

Domingos Fernandes

“Under my hood is internal combustion”

Satan is My Motor“;  Cake;  Prolonging the Magic


I’ve got wheels of polished steel
I’ve got tires that grab the road
I’ve got seats that selflessly hold my friends
And a trunk that can carry the heaviest of loads

I’ve got a mind that can steer me to your house
And a heart that can bring you red flowers
My intentions are good and earnest and true
But under my hood is internal combustion pow’r
Satan is my motor
Hear my motor purr
Satan is my motor
Hear my motor purr
Satan is the only one who seems to understand
Satan is my motor

I’ve got brakes
I’m wide awake
I can stop this car at any time
At the very last second I can change directions
Turn completely around if I feel so inclined

I’ve got a mind that can steer me to your house
And a heart that can bring you red flowers
My intentions are good and earnest and true
But under my hood is internal combustion pow’r
Satan is my motor
Hear my motor purr
Satan is my motor, motor
Hear my motor purr
Satan is the only one who seems to understand

Satan is my motor
Satan is the only one who seems to understand

Acertar Duas Contas

O pós-eleições já mexe.
Aliás, estas coisas começam – se não de antes – logo na “noite eleitoral”…

1 – Louçã, o tal craque do academismo económico soviético, amado líder de um partido a que um País politicamente ignorante deu o dobro da votação e de mandatos para esta legislatura, vestiu precoce a camisola do totalitarismo de comité, falando pela boca do povo faminto de líder carismático.
Disse o senhor que naquela noite “Maria de Lurdes Rodrigues perdera o seu lugar no ‘governo’ perante o País” e que “os professores tinham ganho em nome da Educação“.

Lamentavelmente, e como se lhe esperava, o tom grave de discurso arrancado lá de baixo não serviu grande conteúdo.
Apenas para a vacuidade e para a demagogia.

Toda a gente sabia de ginjeira que a tão afamada “Milú” não tinha lugar vago em fosse qual fosse um governo PS a formar. Tal a bagunça que ajudou a trazer sobre a cabelça de outro igualmente amado líder das massas, o sr. Pinto de Sousa.
Acontece é que a nega governamental se ficou a dever às manifestações notáveis de professores na rua, que abalaram as sapatas do edifício da “Educação”. À resistência, à oposição, à coragem na defesa do que era inviolável. (Isto, é certo, antes da conformidade, da desistência – que tristemente me fartei de antecipar – e do prazer da votação na origem de todos os males, da parte de tantos docentes e outros lusos…)

O que é certo é que a colagem de Louçã e do Bloco à queda de Maria de Lurdes Rodrigues não cola. Mais: é uma estupidez e um insulto vestir-se de timoneiro da barca educativa, reduzindo os seus tripulantes e passageiros àquela caricatura que muitos já tentaram, a dos “controlados politicamente pelo esquerdalho ruidoso”.
(…Ou, pelo menos, a colagem não cola até que o número de professores a votar Bloco de Esquerda me tire de vez a razão.)

O Bloco mostra que apesar do disparo incompreensível da sua votação continua a ser um partido paroquial com tiques e técnicas que não enganam ninguém. (Digo eu!)

…O que leva ao segundo ponto…

2 – “Os professores não ganharam nada na noite eleitoral!” Gritaria eu a plenos pulmões.

Apesar da supracitada festarola, só ganharam alguma coisa na “noite eleitoral” aqueles que gostam da política e das eleições como de ir à bola , ir ao circo, ir ao Zoo ver os macacos a atirar cócó uns aos outros, ou outro espectáculo edificante que tal.
O professor – ou pai, ou cidadão – que não se limite a achar que “ganhar” é ver “o seu partido” (se é que isso ainda existe…) ter mais votos que outros, ver subidas e descidas nos tops, “impedir maiorias” ou outras tontices, olha para o futuro da Educação e não vê nada de novo. O que é simplesmente sinistro.

 Já veio a – ainda – senhora Ministra da Educação fazer a última birra do morto, contra as palavras de Louçã.
E ao que parece o último suspiro deu-lhe para a cristalina clarividência.

Quando diz que a vitória do PS é “bem merecida porque é o resultado da sua visão e determinação de progresso para o país limita-se a exercer o seu direito constitucional à bojarda redonda.
Quando afirma que Louçã “não tem legitimidade para falar em nome de todos os portugueses“, limita-se a uma prática que lhe é usual e já a todos saudosa, a da tirada desavergonhada…
Mas, quando afirma que “é um erro centralizar e fulanizar” a política educativa, é apenas arrasadora.

É que está totalmente certa. (Por oposição ao míope e gigantista Louçã.)

Os desmandos sofridos pela Educação nesta última quase meia década foram obra de uma mulher. E de um Ministério. E de um “Governo”. E de um Primeiro-Ministro. E de uma maioria parlamentar absolutista. E de quantos – depois de experimentar a vertigem do voto rosa – reincidiram na eleição dos mesmíssimos actores.

Maria de Lurdes Rodrigues é uma mera figurante no plano mais largo deste filme.
Uma espécie de braço armado de uma vaga que a ultrapassa em grandeza e em essência….  

 …E que persiste. Activa.

Dir-me-ão que neste momento se pode aproveitar o fim da “maioria” para remediar o mal.
Engano!
O maior mal está operado e não tem retorno. Tivéssemos nós pensado nisso mais cedo, quando sob ameaças debandámos e nos metemos em buracos.
Dir-me-ão que com a mudança de intérpretes se abrirá a janela para mudanças de “estilo” e de “rumo”.
Estupidez! (Ou manipulação.)
Os intérpretes serão rigorosamente os mesmos, com a excepção do enfoque da luz dos media. Quem esteve estará, dentro ou fora. Quem fez, faria de novo e não desfará porque assim manda a sua destorcida ética.

Por esse motivo sou desde já um opositor declarado à próxima Ministra da Educação. (Que será uma mulher, já que os “ministérios pouco importantes” tendem a ficar nas mãos de mulheres, até nos “governos” mais parideitários.)
Porque será mais um tentáculo de uma forma de conceber, de projectar, de aplicar e de impor que já deu frutos que já provei. Papel que, se não desempenhasse, outro desempenharia no seu lugar. Receptáculo quasi vazio que espera ser preenchido por uma corrente de lama que o transborde.

Resta-me esperar apenas – último reduto – que não venha a ser ninguém que conheça pessoalmente. Sempre me diminuía a velocidade da septicemia.

Não Mudaria Uma Vírgula

…Uma única vírgula à análise de Alberto João Jardim aos resultados eleitorais de 2009.

E de quem discordasse dele gosataria muito de saber em que parte.

* “Portugal está neste momento sob um pesadelo
* “há qualquer coisa de errado neste País
* “quatro anos de ‘governação’ Sócrates [com] todos os sarilhos em que o Primeiro-Ministro foi exímio em estar metido
* “[Portugal] ainda lhe dá maioria relativa, embora inferior ao número da abstenção nacional
* “o País endoidou
* “o País está doente
* “não é só o ‘governo’ que está a prazo
* “Portugal, a continuar assim, é um País a prazo
* “o PSD anda a nadar
* “o PSD tem um determinado eleitorado que não pensa se calhar da mesma maneira daqueles senhores que elegem dirigentes dentro do partido
* “[o PSD está doente,] está também, sim senhor

Quando o meu democracismo estica até ao extremo de aceitar que um PCP e um Bloco tenham assento no meu Parlamento, como posso admitir que uma voz destas seja remetida para o curro dos desalinhados pelo belo-pensar reinante?

O Re-Início de Uma Era

Não interessa que os resultados sejam estes ou não.
O resultado é sempre o mesmo.
O PS ganhou. Isto é, Sócrates é o novo-velho-Primeiro-Ministro.

O que me enche de vergonha.

E não costumo reagir desta forma, porque não tenho mau perder.
Não tenho nada contra o PS como partido – como a minha vida dos últimos anos demonstra à exaustão.
…E nunca me encheria o papo de gozo que o meu partido, o PSD, tivesse ganho.
Mas quando Portugal insiste em ser liderado por canalhas, gerido por incompetentes, controlado por ditadoretes, mostrando que quer persistir numa fórmula que já conhece, merece tudo.

E lamento-o por mim. E por muitos milhares que tentaram sacudir o jugo. Lamento-o por todos. Lamento pelos que ainda não nasceram e a quem teremos a oferecer nada.

Portugal estava farto de saber que não era votar “socialismo” votar PS.
Era votar outra coisa. De que pelos vistos Portugal gosta e lambão quer ainda mais.
E vai tê-lo!

Pena não ter eu menos 20 anos.

Sem Meias Palavras

…Lê-se por aí num cartaz.

E se a frase não estivesse tão doentiamente colada à cassete de Ferreira Leite toda a gente se apressaria a confirmá-la sem reservas.
Chegou o momento  de nos definirmos. Como povo. Mais uma vez.
Numa destas ocasiões cíclicas e folclóricas em que tudo assume um contraste e um relevo tais que se não os perdesse no dia seguinte ao do papel cruzado facilmente se confundiriam com preocupação e civismo genuínos da parte de um Portugal lorpa e embasbacado.

Mas, para começar, não haja dúvidas: tudo o que se passou nesta campanha é a nossa cara, de portugueses. Sem excepção. E é um exercício fútil de desespero e alienação acantonarmo-nos num buraco, defendermos a nossa praça e simularmos uma pose exterior a todo este caos e a todo este nojo.
Temos mesmo a campanha que merecemos. No exacto País que merecemos. Com as escolhas que permitimos que nos apresentem e que são a nossa cara por pecado e omissão.
E todos os males campeiam. A desqualificação moral, a inépcia de visão, a estupidez no gerir, a mesquinhez no propor, o cinismo do debate, a mesura no confronto, o calar e o dizer pesados pelo interesse, a pretensão nauseante de uma certeza de trapos.

Mas se existe uma certeza é a de que não votar é agravar a doença. É deixar à rédea solta quem irresponsável e largo mais se verá à vontade.
Venha ele a ser quem for.

E numa situação como esta, votar é um acto de gosto como serrar uma perna e dá-la a comer aos cães.

Mas a escolha, há que fazê-la. Há que assumi-la e mantê-la. Sem meias palavras em nós.
E o meu voto está lançado.

Nunca na vida votaria no – assim chamado – Engenheiro.
Não votei há quatro anos, hoje menos razão tenho. Representa o que abomino, é como tento não ser, não quero confundir-me com ele.

Disse-o quando foi eleito, que a maioria que recebeu era sinal de gangrena.
Como quem dá à criança uma bicicleta nova sem ter feito por merecê-la, o Engenheiro ganhou uma maioria absoluta, foi-lhe dado o prémio máximo, oferecida a prenda mais cara por um povo taralhoco sem qualquer tino no bolso. Não fez nada para ganhá-la e no entanto ganhou-a. Desperdício absoluto.
Por ser “giro” e “bem-falante”, por ter feito “umas coisas”, por ser “uma cara nova(!)” e por falta de melhor.

Disse-o depois, quando Sócrates montava equipa, que o pretensoGoverno com estrutura diferente” seria um bluff.
E foi-o. Sabemos hoje da “diferença” que não chegou a haver na orgânica do “governo” e dos brilhantes resultados que também nunca chegaram a ver-se.
Mas este foi um “governo” não só bluff como insulto. À inteligência dos portugueses e à sua responsabilidade de Estado.
Quando com régua e esquadro Sócrates criou ao milímetro um “governo” meio-PS/meio-civil, um “governo” meio-académico/meio-normal, firmou duas evidências. O que para si mais importava no jogo do conteúdo e da forma, e a lucidíssima percepção do que aos olhos de um povo papalvo mais proventos lhe traria – evidências até hoje.

Disse-o, logo a seguir, que este “governo” absoluto nascera absolutista. (E havia quem o murmurasse…) Porque um  truque do absolutismo é mentir ao povo ignaro para lhe aparecer salvador e depois dar a estocada: e Sócrates assim o fez.
É um dos travestis mais interessantes para os vindouros estudarem o do famoso “défice de 6,83% “- número mágico que de lá para cá todos aprenderam a repetir, reforçando a máxima que da repetição a mentira se faz por fim a verdade.
O número absolutamente “escandaloso”, o valor totalmente “surpreendente”, o pretexto das contas públicas que permitiu a Sócrates fazer o que muito bem lhe aprouve.
Um “défice” um dia estimado por uma conveniente “Comissão Constâncio” (apuradas as despesas e ignoradas as receitas de quem não chegou a governar), cheio de isenção e de rigores.
Porque “o Santana era muito mau e só à custa de receitas extraordinárias, alienação de património e exploração do povo é que sabia governar”.

Disse-o, à medida que o tempo ia passando, que este “governo” era a cara de um modesto Secretário de Estado/Ministro do Ambiente que deu o passo maior que a perna. O tornado famoso “provinciano”, que passou a trajar em Los Angeles, possuído por um patético Complexo de Cinderela.
O que se viu foi um “governo” que continuou episodicamente a saga da facturação detalhada ou dos aterros sanitários, desta feita nas barragens, nas eólicas, no Magalhães para os miúdos, mas que colocou o País, se não no mesmíssimo patamar em que o encontrou, pior.
Mas porque não verificar números de desemprego, por exemplo? Os de antes e de depois de Sócrates – entenda-se que muito antes disso da “crise” global, ou lá o que é… Assim coisas por onde se comece a responder ao atoleiro que é esta terra….
Verificar os famosos números do défice.
Verificar a evolução do investimento estrangeiro que Portugal conseguiu durante esta quase meia década.
Verificar o volume, a natureza e a sustentabilidade das exportações nacionais.
Inquirir qual o desígnio que Portugal persegue neste momento. Qual o seu caminho, em que é diferente de si há cinco anos e em que pretende ser diferente dos outros para com eles competir e ganhar. O que passou a produzir? O que passou a vender? O que se propõe às novas gerações senão imigrar.
Inquirir quem vai pagar – e como – o endividamento nacional galopante, que cresce ao ritmo de 2 milhões de euros por hora e já vai à volta de 100% de toda a riqueza que o País produz e já nem sequer é nossa.
…Mas estas não são questões próprias de um povo sedado, de um governo absolutista de maioria, de uma classe política anémica ou de instituições a quem competiria zelar pela normalidade do desenvolvimento económico mas por razões ínvias não o faz.
Claro que não são.

Disse já muitas vezes que me envergonho de ter como um símbolo primeiro da Nação um homem com uma enfezada minúscula.
Um gaiato caprichoso que fez da sua ambição o escadote para o “governo”. Sem instrução, preparação ou educação, muitas vezes, munido tão só dos calos ganhos nesse pára-arranca de caminhar corredores e sentar-se em cadeirões.
Um gaiato que fez da aparência jumento em que vai de parada. (…Bajulado à passagem por um povo de invejas, devoto do barro cozido.)
Um gaiato de má fama – “são más-línguas, coitadito!” – que finge que é não sendo, que não sendo o é por força, que o que fez não o diz, que o que diz não o fará. Cliente de más casas e de más frequentações, não perde a pose ao rosnar, ao jurar, nem ao sorrir.
Um gaiato que à sua mão pensa que vem toda a gente. E que os que à primeira não venham lá cheguem depois da lição.
Um gaiato perigoso, como um gaiato qualquer a quem se dá confiança. Num transe de carnaval em que o País mergulhou.

Nunca na vida votaria no – assim chamado – Engenheiro.
Não votei há quatro anos, hoje menos razão tenho. Representa o que abomino, é como tento não ser, não quero confundir-me com ele.

Mas a escolha, há que fazê-la. Há que assumi-la e mantê-la. Sem meias palavras em nós.
E o meu voto está lançado.

Votarei PSD. E a quem se lhe empresta da cor.
Não tenho nada a provar, nada tenho a explicar. Pelo menos além do que quem me conhece já me ouviu: a insegurança, a vergonha, o receio a que nem assim eu fujo.

Mas um homem de Direita, que vive a Honra e a Pátria, e assim se vê acossado, não tem grande alternativa.

O retrato destes dias é o da “hora da verdade” e da merda lançada contra um cartaz de campanha para os lados do Bombarral.
Pelo que diz da política, o que diz dos seus actores, pelo que diz desta terra, o que diz de quem cá está. Perdidos, todos enfim, cientes mais uns que outros.

E numa situação como esta, votar – por mero imperativo cívico – é um acto de gosto como serrar uma perna e dá-la a comer aos cães.

PRÉMIOS PT – Por Quem os Sinos Dobram

E o prémio Perda de Tempo vai para…

A “arte” não deixa de me surpreender.
(…Aliás, se calhar é mesmo essa uma das suas eternas características.)

Por exemplo, deslumbra-me como uma civilização ocidental cria pérolas como o “Rapazes Nus a Cantar”, que anda agora pelo Casino do Estoril – a 20euros o bilhete.

Nunca um “produto artístico” foi produzido segundo este elevado padrão de engenharia cultural.
Trata-se, pode dizer-se, do derradeiro espectáculo-total.

Senão veja-se.
Nunca se conseguira antes que a arte-imitasse-a-vida desta forma. “São várias histórias sobre a nudez masculina“… e eis que a nudez masculina ocupa toda a boca de palco. Vejam lá se algum dia ouviram falar de algum “Édipo-Rei” em que o dito pinocasse em palco a senhora sua mãe, para no termo do espectáculo o protagonista vazar as órbitas com um pauzinho chinês a esguichar sobre a primeira fila… Nunca viram! Mas agora sim.


Nunca a arte foi tão sublime e refinada. Esta não é uma obra gratuita…
Estas “histórias sobre a nudez masculina” não são “eróticas“, “têm uma carga sexual“, mas atenção que “não é essa“. (Deve ser “outra”.)
O próprio facto de este ser classificado no cartaz como um “espectáculo para maiores de 18 anos” não terá passado de um lamentável lapso.

Aliás… os saltaricares de minhoca registados em palco são tão secundários na “peça” que no público “à terceira música já ninguém se lembra que estão nus“.
(Restando saber o que vai na cabeça do público durante as duas primeiras músicas e meia seguidas, uma vez que de certeza que não se lembra de que os “actores” estão a cantar…)

Nunca um casting exigiu tanto a futuros artistas de palco como este.
É que este é “um espectáculo artístico (!!), é um musical, tem partes de comédia, tem partes de drama. Os intérpretes têm que cantar muito bem, têm que se mexer muito bem“.
Este “espectáculo artístico” não tem complacências com gente que não cante bem – pelo menos depois das duas músicas e meia iniciais – ou com quem não meneie bem a lagartixa. É que ir do “drama” à “comédia” a “interpretar” nu é dose para qualquer um.

Nunca se viu um trabalho de adaptação de texto do original para Luso tão aturado.
Aliás, a partir de um texto original ele próprio tão literariamente recortado.
Como nos explica o encenador – metade do saudoso duo “Nuno e Henrique” – Henrique Feist, “o espectáculo não tem história, não há uma narrativa que acompanhe o espectáculo, no fundo, cada canção é um quadro [como na revista à portuguesa]“. “Cada quadro fala sobre uma situação, sobre uma emoção. Um quadro fala sobre amor, outro quadro fala por exemplo sobre a tradição da circuncisão no ritual judeu, um quadro fala sobre a vida nos balneários“. Ficando nós a saber que “a circuncisão” é capaz de ser “uma situação” ou que “a vida nos balneários” é capaz de ser “uma emoção“. Se calhar, sim…
O que é certo é que a literatura transpira tanto dos corpinhos gingados como do texto cantado. Exemplo?

E lá no meio de tanto vapor / tu finges não saber que estás ao dispor“…

…Já estou como aquele “actor”, também não quero “ofender ninguém nem ferir susceptibilidades“.
Mas, ao contrário dele, quer-me parecer toda esta história não é uma “parvoíce” mas uma tremenda chanchada.

Sei que em tempos que já lá vão tive assanhado contra mim um popular escriba, por eu ter cometido semelhante atropelo de me recusar a ir ver um “espectáculo” e ainda assim criticá-lo. (Como se a fundamentação para não o ver não pudesse partir exactamente de uma reserva de base sobre a sua natureza.)
Mas para mim, que apenas olho à volta, tudo isto é… digamos… bastante folclórico.

Primeiro: este é um “espectáculo” que vale em bilheteira, corre mundo e é notícia na têvê exclusivamente pelo factor “Sardanisca de Fora”. Ponto! Quem se lhe dirige pretende ver os tais “Rapazes Nus” a fazer não importa o quê. Ponto! Vendia tantos ou mais bilhetes que este, um “espectáculo” de gajos nus a recriar canções do Festival ou a correr em círculo durante duas horas a dar-a-dar. Ponto! Tudo que sejam tretas sobre o pendor artístico dos artísticos pendores não passa disso, de tretas.

Segundo: este é um “espectáculo” produzido, realizado e levado até si por um sub-sector cultural do grande albergue que é a cultura ocidental, o sub-sector da cultura gay. Ponto! Tudo que sejam lérias mainstream de um “espectáculo” destinado ao “grande público”, em que “toda a gente” fará a identificação das “situações” e das “emoções” em palco com as suas mesmas, não passa de publicidade enganosa. Não é por acaso que o “espectáculo” está referenciado como must dos roteiros gay internacionais. Não foi por acaso que o “espeactáculo” teve um ensaio pago, cujas receitas reverteram para a ILGA-Portugal. Não é por acaso que a questão sexual tem de vir à baila quando se fala do público – previsível? – do espectáculo, vincando-se que é para “heterossexuais, gays ou bis“. O que seria a coisa mais banal do mundo – como haver um jogo na Luz, um concerto na Gulbenkian ou circo no Parque Tejo – cai na calha da obsessão reinante em enfiar olhos dentro e preferências abaixo um “espectáculo” que ninguém tem obrigação de considerar nem arte, nem entretenimento, nem coisa com o mínimo de caco,  ou menos ainda um veículo para a iluminação das almas no sentido de um dia destes passarmos todos a achar graça ao mesmo, isto é, às coisas sentenciadas misteriosamente como “as certas”.

Terceiro: este é, inexplicavelmente, um objecto peculiar, que mereceu um tratamento de favor por parte dos media. Ponto! Não falo da natural (!) cobertura da sua existência, mas da torção das regras do jogo que rapidamente se lhe associou. Bastará dizer que foi entre duas garfadas de jantar que me apareceram – e a quem mais estava à mesa – em pleno Noticiário uns tipos a cantar e a bailar de porta-chaves ao vento, sem qualquer tratamento da imagem (vídeo que já coloquei lá mais acima…). O que é um absurdo e é visto como eu próprio o vejo pela própria SIC que o passou. Hoje, façam lá uma pesquisazinha pelos “Rapazes Nus” no site da SIC para ver que vídeo encontram… Nenhum! A SIC entendeu agora por bem retirar o vídeo frescote que mostrou à hora do jantar. Estranho e condeno este voluntarismo e esta leviana excepção aberta sem uma razão plausível.

Facto que fica é o triunfo das ondulações de badalo sobre a solidez da Cultura. Não neste caso em especial, mas a avaliar pelo caminho construído com milhões destes  ladrilhos, que a nossa “civilização” calcorreia.
Facto é que de badalada em badalada dobram os sinos por tudo. Pelo que é Cultura e que vai definhando à vista, definhando nós com ela, e pelo que devia mudar da imobilidade de vistas mas que cada vez mais se enterra por tentativas parolas de dar o golpe de asa necessário à desejada mudança.

Entretanto, até por ser mais barato, (re)vejam o espectacular “Full Monty” de 1997. Um filme inteligente e engraçado.
Esse sim – sem balneários nem pirilaus como pretexto – com “situações” e “emoções” com que cada um se identifica.

“Nós Sempre Cá Estivemos”

Descer à Cidade

Sábado vou à cidade.
À Lisboa de que tanto gosto.

Vou passear pelas ruas, alongar-me pelos espaços, e tentar reencontrar o que em mim é verdadeiro. Aquilo de que com o tempo nos tendemos a arredar.
Regressar à minha origem, recordar-me de quem sou e do que me faz caminhar.

Será dia 19.
Resta-me escolher o local.

Talvez vá até Belém. Ver o Palácio seiscentista.
Magnífica estrutura que um dia, por força de um terramoto, teve alguém que a tomou.
(…Quando, em tempos de terramoto, hoje ninguém deita mão – porque os pilares se lhe afundam – ao Edifício em que ensino.)
Contemplar o seu tom rosa e desejar com ardor acordar de um pesadelo.

Talvez vá até S. Bento. Ver outro palácio de seiscentos.
Contemplar a morada onde outrora habitou a alma, mas foi um dia usurpada por quem então lhe mudou para sempre o rosto e a essência.
(Hoje, que o que se tinha de certo, de correcto e de fértil, na casa da Educação, está espalhado pelo sobrado, debaixo dos pés e da incúria, em risco de mudar para sempre.)
Contemplar onde outrora moravam homens e alma, e onde hoje se arrastam com preguiça a virtude e o princípio.

Talvez vá até às Avenidas Novas. Por exemplo à 5 de Outubro.
Passear naquelas artérias espraiadas a Lisboa como forma de fugir a uma dimensão diminuta que o modernismo rasgava.
(Metáfora ao que nestes dias o ensinar se sujeita. A um rótulo de passado colado a tudo o que foi e ao cavalgar glorioso num ímpeto que à falta de tino se mascara de moderno.)
…Sendo que no século XIX o sulcar de mais cidade foi um acto de visão.

O que é certo é que eu vou.
Não sei como, admito-o. Porque é um disparate pensar que poderia estar num momento em toda a parte.
Mas vou.
Vou porque lá vou buscar o punhado de razão que me permitirá amanhã dizer que não vacilei. Quando tudo o aconselhava.
Vou lá buscar a razão para continuar a pensar que vale a pena lutar. Que não posso formar outros se me permitir a mim transigir no que é profundo.
Se calhar irei sozinho – num sentido figurado.
Mas tal não vai demover-me. Para passear pelas ruas, para me alongar pelos espaços, para reencontrar em mim o que não pode morrer, basta-me essa companhia.
Para regressar à origem, recordar-me de quem eu sou e o que me faz caminhar.

O Contrário da “Zurrada”

Isto parece o Estado Novo“.
Sim, parece.

Mais uma vez, pregando sozinho, como grito no deserto, voz do coro dos malucos que nesta terra acusam os podres de um Carnaval infindo, Medica Carreira falou.
Mais uma vez.

Numa espécie de balanço hiperlúcido – e insistente – sobre a vergonha material de viver nesta Terra.

Na revista Visão que hoje saiu das bancas.