Cobradores, Credores e Outros Exploradores

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Varrer os Cacos… Ainda

Como bem explicaria aquele senhor de rabo espetado da metade esquerda do seu televisor: acabou-se.

Acabou-se a campanha, a eleição, o folclore, o(s) espectáculo(s) triste(s).
E principalmente a possibilidade sinistra de um “Governo” absoluto de maioria absoluta ter a cereja no topo de uma vitória nas europeias.

Quando, afinal, as “sondagens à boca das urnas” davam um resultado um pouco diferente do das sondagens que desfilaram durante toda a campanha. (O que – mesmo de forma atamancada – tem sempre explicação científica.)

O PS foi – graças a Deus – mandado contra a parede e posto em sentido.
Apesar do que para aí se diz.

Mas deste toque a rebate da realidade várias pequenas lições poderiam ficar, de futuro, de cartilha, aos de boa mente.

1ª – O País continua pasto fértil para a gangrena da política. Continua a dormir. Apesar de em comparação com as últimas Europeias mais dois e meio por cento dos votantes terem usado a inteligente arma do voto em branco ou nulo, a taxa de abstenção subiu também ela quase um ponto e meio. Continuamos a achar que não estar presente é sequer uma maneira de responder aos  nossos problemas.

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2ª – Não compensa fazer escolhas amalucadas de candidatos-choque. Quando no último congresso Sócrates – tal mago de feira – tirou da cartola o candidato comunista Vital Moreira, esperando rasteirar os opinadores internos e partir os rins à oposição que o apelida de monolítico, quilhou-se. Já a brilhante constituição-base do seu “Governo”, com Freitas do Amaral no elenco, tinha sido genial. Não aprendeu. Repetiu. Deu-se mal.

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3ª – Fazer listas com candidatos-fantasma traz mau karma. É que nem quer dizer que os eleitores liguem patavina – para tal era preciso andarem acordados – mas o alinhamento cósmico que daí resulta é tramado. Quando olhamos para a lista do PS ao Parlamento Europeu e damos de caras com os nomes eleitos de Elisa Ferreira e Ana Gomes, é impossível não soltar um “ah” de espanto. Como é possível o PS admitir – …e esta República das Bananas também – que uma Elisa Ferreira, eleita em quarto lugar na lista rosa, seja a candidata do partido à Câmara do Porto – que se ganhasse assumiria – ?, ou Ana Gomes, eleita em sétimo, a candidata a Sintra – idem, idem… – ? É verdade que a mixórdia acontece um pouco por todo o lado – como no caso da Ilda Figueiredo e Cª – mas é improvável que nesta terra outro fenómeno que não o da coutada do pensamento quase unânime possa explicar tal coisa. Ainda que os resultados possam sair, como neste caso, pela culatra.

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4ª – “O que é demais cheira mal” ou “mais vale ser desejado que aborrecido”. Basicamente, a cultura popular deixa uma coisa clara: ninguém gosta de chatos. E Sócrates – naquela bebedeira andopausada de ser um ser humano poderoso e lindo – meteu na cabeça que era dele mesmo que a campanha do comunista Vital precisava para a arrancada decisiva. Sendo por demais claro que sucessivas dezenas e centenas de milhares de cidadãos nas ruas em protesto eram um público difícil para a pregação desse suplemento de alma. E, como era previsível, esta espécie de meio-candidato do mediatismo não só não chamou que já estava farto dele como espantou a caça que podia vir a aproximar-se do desinteressante Vital.

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5ª – Portugal não é só provinciano. Tornou-se uma estirpe de provincianismo pequenito e insular que elegeu o seu maior símbolo actual para se sentar em S. Bento e tomar conta disto tudo. Tanto que quando alguns provincianos clássicos acharam que podiam deslumbrar o tosco luso com luzes e hipérbole, não considerando aquele dado, deram-se mal. Segundo os estrategas rosa, pôr Sócrates a falar espanhol ao lado de Zapatero em Valencia – o que, evidentemente, não se repetiu em troca com Zapatero a falar português em Coimbra! – seria um momento tão emotivo para o patego eleitorado português como novo milagre solar em Fátima. Acontece que o nosso provincianismo está a tornar-nos cada vez mais umbiguistas e menos interessados no mundo lá fora. Em Espanha ou noutro lado. Vá lá o nosso Maior ou outro caramelo. Para beijinhos ou para palmadinhas. Não interessa a ninguém. Se possível ainda acicata a inveja pequenina de quem vê no sofá quem se passeia lá fora e se troteia por festas.
…Ficando uma graça especial. A do discurso moralista dos “acasalamentos” de Vital.

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6ª – Pior que um chato é um gajo que – sendo chato – só conta anedotas velhas. Seja aquela anedota do candidato do PS “ex-comunista” que se vai emplastrar na manifestação anti-PS da InterSindical e supostamente leva no farol, seja aquela do candidato do PS “ex-comunista” que vai ao mercado e é levado em ombros.

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Graçolas gastas. Ambas. Todas. De quem à falta de piada como candidato a alguma coisa junta a lamentável falta de imaginação de se colar ao cromo do Cristo-eleitoral… Visto e revisto. Batido e rebatido. Tão triste quanto mais puxado pelas orelhas para tapar misérias.

7ª – A política só é porca porque alguns a emporcalharam e – como tudo na vida – é mais difícil limpá-la que sujá-la. Quando Vital apareceu com a vassoura da limpeza da política na mão, a sua sorte foi mesmo que andasse tudo a dormir. Era um pretexto tão bom como qualquer outro para arrastar de uma vez por todas, pelos cabelos, aos berros, a espernear, para a praça pública a canalha que em todos os partidos se serve da política em vez de a servir, que em vez de aproveitar à grei do seu esforço se aproveita do suor dos seus iguais chulando-os sem perdão pelas esquinas da nossa sociedade.
…Mas não. Anda tudo a dormir. Graças a Deus.
Assim, Vital fez impune o seu javardo número de associar desbragadamente o PSD (todo, sem contemplações) ao escândalo bancário do BPN, com o seu parceiro de lista Capoulas Santos a acrescentar a tirada da “trupe laranja“.
Valeu uma voz de superioridade moral: a de Maria de Belém Roseira, deputada socialista Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN, que se demarcou da alarvidade e atestou o empenho que o PSD tem mostrado – como os demais – em clarificaro o folhetim no que à comissão compita.

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8ª – “Sondagens” na política são cada vez mais como “arbitragens” na bola. Cada vez menos prestam, cada vez menos dão qualquer garantia ou certeza, mas como não podermos ser nós a fazê-las, há que viver com elas. Agora, calarmo-nos com a sua baixaria é uma coisa completamente diferente. Se o candidato Vital embandeirava tanto com a “vitória em todas as sondagens” na antevéspera do acto eleitoral, espero que alguém lhe tenha posto um comprimido debaido da língua no serão de dia 7. Cada vez é mais flagrante a incompetência do sondagismo e o seu descaramento em nunca admitir a pata na poça – que dito assim até soa a inadvertido… Se desta vez as piadinhas do “Governo” sobre resultados antecipados deram onde deram, pode bem vir um dia em que a boleia sirva cirurgicamente a quem se a quer dar. Se até lá nada dissermos.

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9ª – É um sinal de desespero cívico quando as franjas partidárias aumentam a sua votação. E quando digo “franjas partidárias” pretendo dizer objectivamente partidos anti-democráticos. Que não basta empochar dinheiro do Estado, convencer uns lorpas, ir a votos e ganhar mandatos para se merecer um lugar à mesa da democracia. Por todo o lado na Europa se vê extrema-esquerda – como na Dinamarca – ou extrema-direita – como na Holanda – a avançar sobre as democracias sem respostas sociais aos problemas nem resposta cabal a esta ameaça a que estão sujeitas.
Quando o BE dispara a sua votação, esse é um sinal preocupante, um alerta social de perigo. Assistimos a uma dupla degradação política. A de não haver partidos democráticos com respostas plausíveis para as legítimas aspirações dos povos, que se sentem à deriva; e a de, confundindo “toerância” com “permissividade”, ser permitido a partidos não-democráticos amealhar esse descontentamento através de mel e flores, não sendo nunca obrigados por ninguém a explicar como seria um mundo sob a sua filosofia. Isto é, sob a tirania marxista, leninista, trotskista, maoísta, ou o Diabo a quatro.
(E não me venham com tretas. Sim, o PP aguentou-se bem, mas toda a gente sabe o que ele é e anda cá desde que há “democracia”. O PNR está em jogo, mas com os seus maravilhosos 4/10 de ponto percentual…)
…O BE, ninguém que vote nele sabe explicar politicamente porque o faz e e menos ainda alguém sabe onde parará se continuar a crescer e a mostrar as garras. E a única pessoa com voz neste País que fez o patriótico alerta foi Alberto João Jardim. Dizem eles que “estão prontos“; o perigo é esse.

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Mas as Europeias já lá vão. Agora é varrer os cacos.

E organizar a cabeça em duas pistas.

Uma pista, as próximas eleições, que já não tardam. Sócrates “admitia” que estas Europeias fossem um momento de avaliação do “Governo”. E foram-no. Para as próximas, para quem quiser, há muito material para estudar antes do teste.

Outra pista, a apertada vigilância a esta “Europa”. Cheia de “europeístas” que não vão defender os interesses dos povos acima de tudo; cheia de anti-europeus que encontram no palco azul mero estrado para os seus números egoístas e circences.

…Nenhuma delas podendo dar descanso a quem se interessar pelo nosso futuro.

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