O Dia da Irlanda

Mais uma vez andamos todos distraídos e a vida a passar lá fora…
É hoje que se vota na Irlanda o chorrilho de monstruosidades baptizado – em Portugal – como Tratado de Lisboa.
Ou, melhor, é hoje que os irlandeses vão ter de levar mais uma vez com um referendo de aprovação ou rejeição do dito. Porque se por um lado os seus políticos não são como os nossos, porque prometeram um referendo nacional e ele aconteceu… por outro são iguaizinhos aos nosso e como não querem borrar a pintura na orquestra europeia massacram os seus concidadãos até eles votarem o que devem: “sim”.
O que é capaz de acontecer.
Estamos numa onda de “pragmatismo”, por causa da crise. E sob essa sombrinha já arrasa o argumento de que não pode neste momento de crise – em que a Irlanda passou de oásis europeu a aterro sanitário – perder-nos com discussões “estéreis” sobre “pormenores” do documento.
“Há que permitir à Europa tornar-se cada vez mais sólida, porque só assim, unida nos povos e nas instituições, se preparará para sacudir a crise e construir o futuro.”
O desemprego e a recessão não permitem desperdícios de tempo.
Daí o perigo. Da pressa.
Se em Junho do ano passado os irlandeses rejeitaram uma primeira vez o “Tratado de Lisboa”, fizeram-no após acalorado debate.
Com populismos e demagogias de parte a parte – como é sempre bom – mas o mais esclarecidos possível…
Agora temos “a pressa”.
…Para além da conveniência.

Aprovar o “tratado de Lisboa” tornou-se vital para a burocracia central europeia. Para aqueles que já se sentam à mesa das decisões, tal como para aqueles que são tolerados numa mesa à parte, para as crianças, mas que aspiram à projecção e ao prémio.
É sintomático que pela Europa fora apenas em parlamento o Tratado Constitucional tenha sido aprovado. Ou seja, em sede onde as maiorias partidárias europeias, confortáveis, jogam o seu peso e a sua vontade.
Em referendos populares, que é bom, veja-se o que houve na França ou na Holanda…
Em pânico, a burocracia europeia – com sede em Portugal, por altura da Presidência da União no segundo semestre de 2007 – apressou-se a um travesti que consistiu em chamar “Tratado Reformador” (ou como os tugas pequenitos forçam: “Tratado de Lisboa”) ao tal esboço sinistro de Constituição Europeia, supostamente agora mais fácil de impingir aos desatentos.

É que não estamos a falar de brincadeiras de políticos. Daquelas que sempre nos ardem os bolsos e vergam as costas.
Estamos à porta de uma coisa muito mais grave.
Com este texto “aceite por todos os povos” da União:
* a “Europa” passa a ter uma figura nova, de “Presidente”, espécie de Presidente-da-República-de-todos, esvaziando até os símbolos nacionais mais básicos;
* passa a haver uma espécie de Ministério dos Negócios Estrangeiros da “Europa”, o que faz com que qualquer assunto relevante no contexto internacional deixe de ser tratado connosco, é tratado com o o “nosso” papá, que não deixa espaços para discordâncias quanto à sua política diplomática;
* Portugal nunca mais terá – em função do seu relevo – comissãrios seus na Comissão Europeia, deixa de estar previusta qualquer tipo de rotatividade;
* a prevalência das decisões “europeias” sobre as decisões parlamentares nacionais passa a ser avassaladora;
* a votação em Conselho de Ministros da União passa a funcionar com um esquema de pesos de voto que anulará de forma total a voz das nações menos populosas;
* os nossos recursos e as nossas riquezas – por exemplo a nossa costa – passam a estar subordinadas a um interesse e a uma gestão europeias;
* nem as nossas autoridades policiais nem militares continuam a ser soberanas na actuação dentro dos limites invioláveis do território, passando a ser possível intervenções alheias nestes campos dentro de fronteiras nossas;
* é claramente esvaziada a cidadania portuguesa – ou outra europeia – e progressivamente vamos rumo ao conceito de “cidadão europeu”.
Isto é muito sério.
Já o disse antes.
Esperemos que contrariamente aos portugueses – que se deixaram papar por uma aprovação no Parlamento – os irlandeses saibam uma vez mais ser o último bastião da independência das nações da Europa, resistindo ao rebuçado e à chantagem.
(Um certo) Portugal agradece.
…Ainda que, como dizia o Millôr Fernandes: “Nação que está à espera de um salvador, não merece ser salva“.

[Publicado também no Canto Aberto.]












vivemos um doce autoritarismo, que não contestamos enquanto tivermos um iPhone e MeoTV
…até ver
Nós, cidadãos europeus temos a suprema liberdade de concordar com os desejos dos burocratas e politicos integracionistas da UE. Recusar esta liberdade começa a ser sinal de disturbio mental.
Com o tempo os que a recusam serão internados em hospícios para doentes mentais como nos bons velhos tempos da URSS. Já faltou mais.
caro Henrique: as coisas são assim… tanto tempo a caprichar fotos e a que gabas acaba por ser uma que pesquei no Google
mas é por aí. a guerrilha chateia quando existe e aparece quando menos se espera. é, não é?
Quim: enorme prazer em rever-te. nem a net que aproxima faz milagres…
contudo continuamos cá. todos. os que procuram o prazer, a beleza, a informação, as dores de cabeça provocadas por uma parada de cabeçudos fora de época que já perderam a piada há muito tempo
mas olha, aproveita-se o abraço amigo. que retribuo com muita força
ufff!!!
Finalmente consegui entrar no teu blogue, rapaz!!
Só um pequeno comentário de quem nada percebe de política, melhor de alta política:
Este Governo, este PM, até por essa Europa estão a deixar o seu rasto…
já nem chega os estragos que por aqui vão fazendo!
Só quem votou neles é que devia de ser governado por eles! (e mai nada)
Como afirmei, nada entendo da arte do governo dos povos, mas…
Aquele abraço!!!
Essa foto do hastear da bandeira está espectacular!
Depois de uns tempos de Sibéria, lá foram os irlandeses votar que sim. Esquecem-se os construtores da Europa que a guerrilha nunca foi vencida.