Na Partida…

Robert Enke (24/08/1977 – 10/11/2009)
Estava na loja dos frangos a queimar tempo à espera de ser atendido e observava a enfiada de notícias da treta dum dia comum, espreitadas com fastio numa televisão de som sumido.
E de repente a notícia do suicídio do Robert Enke.
Senti-me chocado. Com a notícia em si, com o facto de aparecer perdida entre duas outras quaisquer banalidades que lhe roubaram o contexto e a profundidade, e com a inevitabilidade de também esta notícia depois de amanhã já se ter diluído na água do tempo.
Que assim é a leveza da vida e assim é a inexorável ligeireza da morte.
Mas chocou-me. Tanto que inauguro aqui uma tag “Benfica” – assunto que dificilmente me veria a ocupar espaço no meu modestíssimo blog.
Tanto que, estranhamente, faço um luto privado pela morte deste desportista.

Nem gosto muito de bola. Há gostos para tudo e os meus são mais outros.
Mas tenho nitidíssima a memória do Enke na baliza do Benfica, em 1999-2002 (fui ver à net, eu, fraco adepto) : a juventude, a garra, a competência, a correcção, a dignidade. Que tanto escasseavam à altura na bola como escasseiam ainda hoje, arte corrompida de mercado, passatempo arvorado em religião.

Depois foi para Barcelona (também fui recordar à net) e nunca mais soube dele…
Hoje apenas tenho pena.
Até pela identificação inevitável que qualquer um faz com a história humana de um fora-de-série cuja vida, nas suas múltiplos caprichos e becos, não foi completa ou feliz. Pela identificação inevitável com a história de um homem que teve o que muitos cobiçariam mas que não resistiu ao sentimento de uma perda intima que o fez desistir de tudo o mais. A história de um homem de carne e osso.

A vida é assim.
(Será?)
Primeiro milagre grandioso, depois corrupio de carrossel, pelo meio uma meta no horizonte, e por fim uma meta pelo caminho.
Mais do que o que pensa um homem antes de lançar o seu carro para debaixo de um comboio, o que pensa um homem no momento em que o faz?
Que respostas encontra? Que vazio consegue preencher? Terá os seus olhos abertos ou fechados?, secos ou cheios de água?
Agora o silêncio. Enke não regressou mesmo ao seu Benfica.
…De onde, para mim e para as minhas memórias, nunca chegou mesmo a sair.













é um drama humano.
quantos Enkes existem por esse mundo fora mas que o anonimato não permite ter esta bela homenagem.
“Mais do que o que pensa um homem antes de lançar o seu carro para debaixo de um comboio, o que pensa um homem no momento em que o faz? Terá os seus olhos abertos ou fechados?, secos ou cheios de água?”
que frases poderosas. que introspecção tão circunspecta.